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Egito vai às urnas em eleições marcadas pelo desencanto com a Primavera Árabe

Os eleitores egípcios escolhem as partir desta segunda-feira (26) um novo presidente em um pleito marcado pela decepção dos jovens com a Primavera Árabe. Esse movimento em defesa da democracia atingiu países de maioria muçulmana e, no Egito, culminou com a queda de Hosni Mubarak. A eleição será realizada em três dias, portanto, até quarta-feira (28).

Cerca de 60 milhões de egípcios estão aptos a votar, em pleito observado por nove organizações árabes e internacionais. As zonas eleitorais abriram às 9 horas (4h no Brasil).

De um lado está o presidente Abdel Fatah al-Sissi, que busca mais um mandato de quatro anos. Do outro, está o chefe do partido liberal Al Ghad, Musa Mostafa Musa, apoiador de longa data do ex-militar e visto por muitos como um candidato de fachada. O partido de Musa chegou a apoiar um segundo mandato para Sissi antes de Moussa emergiu como postulante de última hora.

Os outros prováveis candidatos foram detidos ou se retiraram da disputa, denunciando pressão das autoridades, de acordo com a agência France Presse.

Moussa rejeita as acusações de que está sendo usado para criar uma sensação falsa de competição, e a comissão eleitoral afirma que fará com que a votação seja justa e transparente.

‘Esperança incrível’

Em 2011, centenas de milhares de egípcios acamparam durante 18 dias no centro do Cairo para reivindicar a saída do presidente Hosni Mubarak, que dirigia o país com mão de ferro há mais de 30 anos.

Pressionado, Mubarak renunciou, o que fez dele o segundo presidente da região a cair pela chamada "Primavera Árabe", logo depois do tunisiano Zine El Abidin Ben Ali.

Após a revolta, as principais autoridades da era Mubarak foram detidas e os casos de violência policial foram julgados - um dos gatilhos das manifestações populares.

“Era um momento de esperança incrível, não havia limites", lembra Sami, um egípcio, de 31 anos, classe média que participou da “Primavera Árabe”. Ele pediu à reportagem da AFP para não ser identificado.

Em junho de 2012, Mohamed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito no Egito.

Alguns meses depois, a rua se fez ouvir mais uma vez. Os egípcios voltaram a se manifestar, denunciando o giro autoritário das autoridades e o poder crescente da confraria no país.

Al-Sissi, então ministro da Defesa, deu um ultimato, ao fim do qual as Forças Armadas derrubaram Mursi em julho de 2013.

Em 2014, Al-Sissi foi eleito presidente e instalou na sequência um regime autoritário que reprimiu, metodicamente, toda e qualquer oposição - islâmica, laica, ou liberal.

As ONGs acusam as autoridades de violarem os direitos humanos, de desaparecimentos forçados, de cometerem detenções arbitrárias e de detenções ilegais.

Já o governo nega as acusações e insiste em que os abusos são poucos e que seus autores são julgados.

Economia em crise

Para Sarah, de 31 anos, trata-se de um recuo brutal, se for considerada a esperança de mudança alimentada em 2011, quando se somou às manifestações "animada por ter eleições livres e por votar em eleições, nas quais o voto podia fazer a diferença".

Quando Sami se uniu aos protestos de 2011, esperava "liberdade". Depois dos anos turbulentos que se seguiram à revolta, porém, muitos "optaram pela tranquilidade" com a esperança de obter segurança e estabilidade econômica.

Hoje, o resultado é nulo e, economicamente, todo o mundo está sob pressão", lamenta Sami.

Em novembro de 2016, em plena crise econômica, o governo decidiu deixar flutuar a moeda, fazendo-a perder mais da metade de seu valor em relação ao dólar. Os preços dispararam.

Pleito viciado

Jovens que participaram da forte onda democrática da “Primavera Árabe” decidiram boicotar um pleito que consideram "viciado". "Desde a última eleição presidencial (em 2014), estamos em um terreno escorregadio: nada melhora", afirma Sami.

“Socialmente estamos frustrados", acrescenta Sami, que lamentou uma "histeria de segurança" por parte do governo.

Para Safeya, de 31 anos, "a situação é pior do que antes". "Prendem, ameaçam, condenam à morte, porque têm medo de que a gente se rebele de novo", observou.

"Puseram alguém como em um espetáculo, para poder dizer que há competição. Não vou votar em uma eleição viciada", afirmou Sarah.

Primavera Árabe

O movimento democrático que ficou conhecido como “Primavera Árabe” começou no fim de dezembro de 2010, na Tunísia, após o suicídio de um vendedor ambulante Mohamed Bouazizi em protesto contra o governo. A multidão tomou as ruas de Túnis e foi duramente reprimida. Os confrontos deixaram 338 mortos.

Em 14 de janeiro de 2011, Zine El Abidine Ben Ali, no poder havia 23 anos, tornou-se o 1º líder de um país árabe a cair por conta da pressão popular.

Ninguém poderia antecipar que esse movimento seria o epicentro de um verdadeiro terremoto geopolítico que abalou o mundo árabe.

Depois da queda de Ben Ali, seguiram o mesmo destino os regimes de Hosni Mubarak, no Egito, e de Muammar Kaddafi, na Líbia, que estavam no poder há 30 e 40 anos, respectivamente. O primeiro abdicou depois de uma revolta que provocaria a morte de 850 pessoas e o segundo foi derrubado após um levante em Benghazi, com a intervenção da Otan.

Na Síria, o presidente Bashar al-Assad reprimiu duramente os protestos antigovernamentais, gerando uma revolta que se transformaria em uma guerra civil que já dura sete anos. Os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) aproveitam a fragilidade para se infiltrarem no país, agravando o conflito e mostrando outra face das desilusões após a Primavera Árabe. O conflito no país já deixou mais de 500 mil mortos e milhares de deslocados.

 

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